George Harrison: Living in the Material World

O diretor Martin Scorsese sempre demonstrou de forma enfática seu amor pela boa música. Com "The Last Waltz" ("O Último Concerto de Rock") exaltou o ato final da inesquecível "The Band", com o analítico "No Direction Home" esmiuçou toda a grandeza quase profética de Bob Dylan, e com "Shine a Light" prestou um tributo aos seus amigos Stones.  

E agora foi a vez do diretor roqueiro explorar um dos guitarristas mais influentes que o mundo já teve: o reservado, por vezes ácido e sempre criativo George Harrison.

No documentário "Living in the Material World", que foi primeiramente exibido pelo canal de TV BBC, Scorsese se aprofunda em uma história que, aparentemente, já foi contada milhares de vezes. Mas este não é um filme em que George surge como personagem principal de algo maior. Aqui ele é o personagem único, e é importante fazer esta separação.

O roteiro começa procurando remontar a Liverpool em que o guitarrista nasceu. A Inglaterra acabava de sair de uma guerra, eram tempos difíceis, mas de esperanças crescentes. Passando por um sucesso simplesmente ensurdecedor, o músico se transformou em um ícone com os Beatles, mas isso não fez com que sua personalidade atrevida da infância o tornasse um arrogante, muito pelo contrário, o artista possuía preocupações mais que relevantes, que o colocava sempre em uma posição diferenciada perante os companheiros de banda. Um dos principais argumentos que levaram Scorsese a realizar este trabalho, foi uma amorosa carta que Harrison escreveu para sua mãe, e nela ele questionava toda sua riqueza e fama, dizendo que "a vida não se limitava" a isso.

O longa foi dividido em dois atos, sendo que o primeiro flui com uma constância perfeita. Já no segundo o andamento desacelera um pouco, o que acaba tornando tudo um pouco menos vívido e mais explicativo, só que o peso das informações é mais que suficiente para segurar todos com os olhos vidrados. 


Parte do material utilizado por Scorsese será facilmente reconhecido por fãs de longa data do FabFour. Imagens e entrevistas, principalmente vindas do rico documentário "The Beatles Anthology" - lançado pela Apple em 1995 - foram utilizadas. Fora isso, os novos depoimentos recolhidos e as gravações inéditas são puro ouro. Declarações honestas de Eric Clapton e Patty Boyle, por exemplo, são de arrepiar. A ex-mulher de Harrison, provável razão por trás da música "Sometinhg", descreve detalhadamente as palavras chave do final de seu casamento, em que o amigo de longa data Clapton, finalmente admite seu amor por "Layla".

Estão presentes também palavras verdadeiras dos ex-companheiros Paul McCartney - que explica de forma clara a tensão e os atritos por trás do final da banda - e Ringo Starr - que se mostra um poço infindável de pérolas e pura amizade. Além disso, não poderiam faltar descrições apaixonadas da esposa Olivia Harrison (uma das produtoras da fita, casada com o cantor de 1978 a 2001, ano de sua morte), do filho praticamente clonado Dhani Harrison, da influente dupla de amigos Astrid Kirchherr e Klaus Voormann, dos parceiros malucos e sempre gratos do Monty Pythom (Terry Gilliam, Eric Idle, entre outras figuras), Yoko Ono, Jackie Stewart, Phil Spector, George Martin, Tom Petty, Ravi Shakar e de muitos, muitos outros.


Além de sua carreira solo imensamente produtiva, George Harrison atuou em diversos campos da arte. Produziu, patrocinou e incentivou artistas das mais diferentes culturas e objetivos, sendo que em certos momentos chegou a colocar em risco seu patrimônio em prol do que acreditava. Foi o precursor de shows beneficentes, com o "Concerto para Bangladesh" – super evento realizado no Madison Square Garden que visava arrecadar fundos para a UNICEF –, se envolveu de corpo e alma com meditação transcendental (e seu lado espiritual) após visitar o mestre Maharish (vulgo "Sexy Sadie"), ajudando a massificar  o tema por todo o globo.

O filme retrata também, de forma mais aprofundada, a tentativa de assassinato que o músico sofreu dentro de casa pouco antes de sua morte, e todo o impacto desse ato sobre sua saúde já debilitada. A impressionante reação de defesa de Olivia chama atenção, principalmente pelo estado do rosto do agressor, depois de ser literalmente surrado pela esposa de George.   

No final, a única coisa que o documentário realmente não consegue explicar perfeitamente é toda a genialidade e profundidade psicológica de George Harrison, pois isso realmente não tem muita explicação. Passando de menino para deus e de deus para servo, toda a personalidade enigmática do compositor, assim como seu entendimento único da existência humana, morreu com ele. O que ficou foi, além de suas composições eternas com os Beatles, uma carreira solo que é considerada por muitos como a mais rica e criativa, além de produções que marcaram a história e revelaram talentos. George foi um elemento da natureza, que sofreu durante toda sua jornada para se adaptar entre diferentes e contraditórias concepções de vida, sendo que uma se baseava na visibilidade, no sucesso e nas coisas materiais, e a outra, em que tudo de mundano em sua vida era passageiro e sem importância real alguma. Ele visava uma morte digna, queria estar preparado quando sua hora chegasse, e assim foi.

Mas contrariando uma de suas mais célebres frases, é certo dizer que George Harrison nunca será esquecido. Ele não deve passar.


Confira o trailer:


George Harrison: Living in the Material World: Estados Unidos/ 2011/ 208 min/ Direção: Martin Scorsese/ Elenco: Terry Gilliam, Eric Idle, Paul McCartney, John Lennon, Ringo Star, George Harrison, Jane Birkin, Eric Clapton, Tom Pety, Yoko Ono, Ravi Shankar, Phil Spector, Pattie Boyd, Dhani Harrison, Olivia Harrison

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