O Filho de Rambow (Son of Rambow)

Uma história fantástica e inspirada. Foi o que nos proporcionou o diretor inglês Garth Jennings, que dá continuidade a seu criativo currículo. O filme explora amizade, família, o amor pelo cinema e também a quebra de paradigmas, tudo isso com uma honestidade revigorante.

O universo infantil com temática para “adulto ver” foi pouco explorado na última década pelo cinema Inglês. “Caiu do Céu”, de Danny Boyle, que narra a história de um garoto devoto que acha uma mala de dinheiro e pensa que a mesma fora enviado pelos céus, é um dos únicos exemplares que podemos comparar ao filme “O Filho de Rambow”.

A história começa quando Lee Carter e  Will Proudfoot se conhecem. Eles são dois garotos que estudam na mesma escola e são completamente opostos. Lee Carter é um delinquente juvenil. Tudo que ele toca, quebra ou grita. O jovem pentelho mora em um asilo para idosos com alguns familiares que o administram. Passa o dia sozinho com muitas tralhas interessantes no sótão, o verdadeiro sonho de toda criança. Mas claramente ele sente a falta dos pais que nunca estão presentes e sofre com o desdém do irmão mais velho, pessoa que o garoto idolatra.

Já  Will é um moleque franzino e de aparência inocente. Sua família segue uma severa doutrina religiosa e praticamente tudo que o garoto faz desagrada os “irmãos”. Nada das coisas do mundo são permitidas, principalmente filmes.  Mas por trás de sua fachada de anjinho, Will se mostra um garoto sensitivo e criativo. Ele ilustra diversos desenhos e cria personagens a todo o momento. Um verdadeiro artista.


Após se conhecerem, Lee Carter – que também possui tendências a dirigir filmes – praticamente obriga Will a participar de seu curta metragem para o importante concurso “Screw Test”. É quando o pequeno Proudfoot tem uma epifania após assistir pela primeira vez na vida a um filme, e este era “First Blood” (“Rambo”), o excelente primeiro filme da quadrilogia (vem mais?) do personagem icônico Rambo, interpretado por Sylvester Stallone. O garoto fica espantando em imaginar um soldado tão eficiente e assim se torna o “O Filho de Rambow”. Suas ideias inspiram Lee Carter, que saca na hora que o moleque não bate muito bem. O longa prossegue com hilárias cenas de alta periculosidade, sem nenhuma assistência de um adulto responsável. Will não se intimida com nada. Ele se tornou um soldado.

Mas o sucesso de Will acaba trazendo diversos problemas, tanto para o filme que estão produzindo quanto para a amizade com Lee. Quando a fama sobe à cabeça, tudo se torna um caos, principalmente para um filho de família puritana. Em meio a diversas situações, os dois descobriram que o filme com certeza foi a menor das diversões entre os dois “irmãos de sangue”.


O roteiro é incrível. O filme dentro do filme é desenvolvido de forma tão orgânica e natural, mesclando momentos reais e ensaiados, compondo assim uma pequena obra de arte mirim. Os diálogos possuem momentos de profundo humor que abusam da estilização de situações, como o desprezo que o irmão de Lee sente por ele ou mesmo a malandragem desenfreada do pequeno.

Já  a dramaticidade tem muito força por meio dos jovens atores. Bill Milner (Will) e Will Poulter (Lee) são excepcionais. Encontrados após uma extensa seleção em escolas da Inglaterra, os dois jovens não possuíam nenhuma experiência profissional como atores, assim como a maioria das crianças que trabalharam no filme. Mas todas tinham aulas de teatro e interpretação em suas escolas. O resultado foi impressionante. Os dois claramente se tornam grandes amigos durante as filmagens e isso fica exposto na película. Muito bem capturado e produzido, o longa explora antigas lembranças do promissor diretor Garth Jennings, que tem no currículo o engraçadíssimo “O Guia do Mochileiro da Galáxia”.


Com diversas histórias paralelas, tudo é perfeitamente amarrado. Todo o conflito envolvendo o puritanismo da família Proudfoot é explorado de forma crítica, mediante a falta de liberdade (e de explicações racionais para isso) imposta a um garoto tão criativo como Will. A mãe Mary Proudfoot, que é interpretada pela excelente Jessica Hynes (uma atriz boa para comédia e para o drama), apesar de ter pouco espaço na história, traz uma presença marcante que cativa o público. A turma de garotos coadjuvantes é hilária, destaque para Jules Sitruk que interpreta o descolado aluno francês de intercâmbio Didier Revol. Duas curiosidades: Jules era o único ator com experiência na turma das crianças, mas o diretor e produtor do filme só vieram a saber depois de um tempo que ele  já possui certa fama na França; e Edgar Wright, diretor de “Todo Mundo Quase Morto”, faz uma ponta como um dos professores dos pentelhos.

A mirabolante ideia de inserir um personagem emblemático do cinema americano em um filme britânico mais pensante é com certeza um ponto inusitado e muito criativo. A obra se despe de preocupações ao apresentar tudo de forma caricata e muitas vezes até impossíveis – como nas cenas onde o pequeno Will não morre por um milagre. É claro que existem alguns conflitos manjados, necessários para o desenvolvimento da história, mas nada que desfoque o conceito geral da obra. “O Filho de Rambow” apresenta diversos pontos positivos, com destaque a escalação inspirada do grupo de atores mirins, fazendo com que a carga emocional seja explorada de forma excepcional. O pequeno Will Poulter, que interpreta Lee, é um verdadeiro prodígio e Bill Milner tem um carisma fora do comum.

O DVD ainda traz ótimos extras, entre eles um curta metragem de ação dirigido pelo diretor ainda garoto. “O Filho de Rambow” é um eficiente filme para adultos e crianças.


O Filho de Rambow/ Son of Rambow
: França, Inglaterra, Alemanha/ 2008/ 96 min/ Direção: Garth Jennings/ Elenco: Neil Dudgeon, Bill Milner, Jessica Hynes, Anna Wing, Will Poulter, Tallulah Evans, Finola Mureatroyd



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